Marcos DeBrito: o Hitchcock brasleiro







      Marcos DeBrito, além de escritor, também é diretor e roteirista de cinema. Iniciou profissionalmente a carreira como cineasta no Festival de Gramado em 2001 e, desde então, vem produzindo trabalhos cada vez mais ousados. Em 2015 lançou seu primeiro longa-metragem, “Condado Macabro”, dirigido em parceria com André de Campos Mello.
Na literatura, teve seu livro de estreia publicado em 2012 e foi um dos indicados da editora a concorrer ao Jabuti de melhor romance do ano. E ele está aqui em uma entrevista exclusiva para o Leitura Enigmática.



Leitura Enigmática: Quando você resolve iniciar uma nova obra, há alguma estratégia que adota?

Marcos DeBrito: Não acredito que exista estratégia para o processo criativo, principalmente na etapa de concepção de uma ideia, mas quando o tema está decidido é importante ter uma metodologia para que a trama não saia dos trilhos. Geralmente a ideia surge pra mim junto com o final da história. A partir daí, formulo os personagens necessários e crio um resumo de todas as situações até chegar onde preciso.


Leitura Enigmática: Durante a escrita de uma história, as ideias vem com facilidade?

Marcos DeBrito: Depende muito. É mais fácil quando uma ideia chega em você sem que esteja procurando, e isso acontece muitas vezes. Mas o oposto também ocorre. Às vezes você precisa encontrar uma situação pra sair de uma cena, mas ela simplesmente não aparece. Nesses casos, se dou um tempo pra cabeça espairecer com outras coisas a resposta costuma vir.


Leitura Enigmática: Sua obra “O Escravo de Capela” é um livro que se passa na época do Brasil colonial e também aborda duas lendas do folclore brasileiro. Houve a necessidade de ter realizado alguma pesquisa sobre esse período para poder escrever o enredo? Foi tranquilo escrever a obra?

Marcos DeBrito: Acredito que o grande mérito do “Escravo” tenha sido a pesquisa de época. Há muitas histórias contemporâneas que abordam as criaturas do nosso folclore de forma bem criativa, e eu queria oferecer algo a mais do que apenas uma história de terror. Considero o livro mais como um drama histórico. Até a metade dele não há nada de sobrenatural, apenas o cotidiano tenebroso dos escravos e as relações conturbadas da família do engenho. A interação entre esses dois núcleos de personagens pauta a verdadeira mensagem da história, potencializada depois com a vinda da criatura em busca de vingança. Não foi uma obra fácil de escrever, devido a quantidade de pesquisa que precisei fazer e do teor abominável do que li sobre o tratamento dado aos negros no Brasil colônia.


Leitura Enigmática: Você acredita no sobrenatural ou ele faz parte apenas na ficção?

Marcos DeBrito: Só escrevo sobre o que acredito, rs. Um exemplo disso, pra quem leu o “À Sombra da Lua”, é ver meu pingente no pescoço. Nunca tiro o colar feito em prata com a representação pagã de São Cristóvão: um homem com cabeça de cachorro de uma raça conhecida na antiguidade como os Cynocephali. Meus medos vieram do que eu via e ouvia no escuro antes de dormir. Sempre escondi essas experiências por medo de ser ridicularizado, mas hoje entendo a importância de usá-las pra me conectar com leitores e pessoas que passaram pela mesma coisa que eu.


Leitura Enigmática: O Leitura Enigmática ao ler o livro “Condado Macabro”, percebeu uma certa semelhança em algumas cenas com o filme “Pânico na floresta”. Você se baseia em filmes ou outros livros às vezes para se inspirar na criação de suas histórias?

Marcos DeBrito: Minha maior fonte de inspiração é o cinema, pois é a minha principal área de atuação profissional. “Condado Macabro” foi um longa-metragem primeiro, que depois virou livro. “Pânico na Floresta” não foi uma das inspirações, mas é do mesmo gênero. “Massacre da Serra Elétrica”, Sexta-Feira 13”, “Motel Diabólico”, são os principais clássicos do cinema slasher que me inspirei pro “Condado”, além dos filmes do Rob Zombie, “A Casa dos 1000 Corpos” e “Rejeitados pelo Diabo”.


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Leitura Enigmática: Tem livro novo previsto para a alegria dos seus fãs? Pode nos adiantar alguma coisa?

Marcos DeBrito: Hahaha. Sempre tem livro novo. Quem gosta de escrever não consegue ficar parado. Até 2022 tenho planos de que saia um livro por ano. Pra 2019 trarei minha visão esquizofrênica do Apocalipse. Ainda não posso revelar o título, mas já terminei a primeira revisão e adianto que é um livro diferente dos que já escrevi. Estou encerrando com ele uma fase pessoal na qual procurei simplificar enredo a favor da mensagem. Algo que já fiz com “A Casa dos Pesadelos”. Enquanto os outros livros, “À Sombra da Lua”, “O Escravo de Capela” e “Condado Macabro”, priorizavam reviravoltas, vários núcleos de personagens, mortes... Nos dois últimos eu quis trazer uma linha de pensamento mais direta, focado em um drama particular do protagonista e sua luta por resolvê-lo. Saindo esse livro, retorno à origem, com a continuação do “À Sombra da Lua”.


Leitura Enigmática: Qual a sensação de ter seu trabalho reconhecido no exterior? Pretende transformar mais alguma obra em filme?

Marcos DeBrito: Para o artista brasileiro é mais comum sermos aplaudidos lá fora antes de ter o reconhecimento no Brasil. Infelizmente é muito caro e difícil entrar no mercado literário internacional. Mesmo com agente, cabe ao autor o custo de fazer uma tradução prévia de alguns capítulos, sem garantia nenhuma de que será publicado em outros países. Ainda não tenho livros lançados fora do Brasil, mas filmes tem outra dinâmica. Para concorrer em festivais é obrigatório ter legenda em inglês, portanto já é um custo planejado desde o início da produção. Isso faz com que a obra seja vista em diversos países e, com sorte, atraia o interesse de distribuidores. Além dos prêmios que recebi internacionalmente com meus curtas e longas, “Condado Macabro” foi vendido pra vários locais e isso me deixa bastante orgulhoso. Todas as minhas obras são escritas anteriormente como roteiro para cinema, portanto todas estão sendo analisadas para o audiovisual. “A Casa dos Pesadelos” é o mais próximo de acontecer porque é um filme mais barato e já consta com a Letícia Spiller e a Rosamaria Murtinho no elenco.


Leitura Enigmática: Deixe uma mensagem para seus fãs.

Marcos DeBrito: Queria agradecer a oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho e pedir a todos que deem chance à literatura de terror nacional. Temos muitos autores talentosos por aqui que acabam esbarrando no preconceito de alguns leitores. E quando o público não consome um produto, as editoras não sentem confiança de aumentar suas apostas em novos nomes. Isso gera um ciclo de exclusão do gênero que atrasa o desenvolvimento desse mercado. Sinto que houve uma melhora expressiva nos últimos anos, tanto no cinema quanto na literatura, mas podemos ir muito além. Tenho sorte de ter encontrado editoras interessadas nas minhas ideias e acredito que há bastante espaço para o gênero crescer. E isso só irá acontecer da maneira que precisa quando nós valorizarmos o conteúdo que é feito por aqui.


      Atualmente o escritor possui os seguintes livros publicados: "Condado macabro",  "À sombra da Lua", "Escravo de Capela" e a mais recente "A casa dos pesadelos", sendo as duas últimas obras lançadas pela Faro Editorial.

      O Leitura Enigmática agradece imensamente pela entrevista e deseja imensamente sucesso como escritor e cineasta. E continue nos atormentando com suas histórias sinistras. Muito obrigado!!!


@Gustavo Barberá - 25/10/2018. Todos os direitos reservados.


 

23 comentários:

  1. Olá!
    Que entrevista incrível. Já tinha visto sobre as obras do autor se não me engano aqui mesmo no seu blog e mesmo os temas não sendo de minha preferência na hora da leitura, gostei de saber mais sobre o processo de criação do autor e suas referências.
    Confesso que fiquei curiosa para saber como será uma versão esquizofrênica do Apocalipse.
    Hahaha
    Parabéns pela entrevista.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  2. Nunca tinha ouvido falar desse autor. Gostei muito de o conhece. Fiquei muito interessada em contado macabro


    Com carinho Renata Prado | LuArtico |

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  3. Tudo bem? Adorei conhecer mais sobre o autor pela entrevista. Não tinha me atentado para ele ser roteirista. Sei que adoro os livros dele.
    Já li todos lançado, e guardo com carinho na minha estante.

    Beijos.

    Karini Couto
    Além das Páginas

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  4. Muito bacana a entrevista com o Marcos DeBrito confesso que não conhecia ele, máximo o trabalho dele, muito interessantes os livros dele, curiosa pelo livro A casa dos pesadelos, abraços.

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  5. Adorei a entrevista!! É sempre bom a gente ter uma visão e saber mais sobre o processo criativo de um autor. Parabéns pelo trabalho.

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  6. Parabéns pela entrevista, Leitura Enigmática e parabéns ao Marcos pelo excelente trabalho. Quero muito ler A Casa dos Pesadelos. Parabéns pelo blogue .

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  7. Adorei a entrevista, realmente não conhecia o trabalho do Marcos e me interessei bastante em assistir o longa dirigido por ele!

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  8. Oi Gustavo,

    Adorei a entrevista, ficou muito boa e deu para conhecer melhor todo o processo de criação do autor, e o que o inspira na hora de produzir. Ainda não li nada dele, mas conheço alguns títulos e quero ler em breve. Achei sensacional ele criar previamente um roteiro de cinema para cada obra!

    Beijos!

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  9. Oi! Ainda não conheecia o autor, mas me interessei pelo seu trabalho. Principalmente O Escravo de Capela. Concordo com ele no que diz respeito aos autores nacionais, e já li livros realmente muito bons!
    Parabéns por dar voz aos artistas nacionais!!
    Abraços!!

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  10. Muito boa essa entrevista, foi um prazer conhecer o autor e seu trabalho! Concordo com ele, os autores nacionais precisam ser mais valorizados!
    Abraço!

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  11. Ainda não conhecia, confesso. Muito bom poder ter essa oportunidade aqui, achei bem interessante seus trabalhos. Vou tentar acompanhar mais!

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  12. Que entrevista sensacional!
    Já ouvi dizer que o gênero está crescendo no país e tems grandes escritores despontando como é o caso do Marcos.

    Belo trabalho, abraços.

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  13. Que legal a entrevista, Gustavo. Foi ótimo conhecer um pouco mais do Marcos e saber seus projetos. Torcendo muito para o filme A casa dos pesadelos se tornar realizadas com as atrizes citadas. Conheci o autor na bienal de São Paulo 2018 e ele é muito simpático. Talento todo mundo já sabe que ele tem. Sucesso!

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  14. Olá
    Adorei a entrevista, meu primeiro contato com o autor foi com o filme do Condado, teve uma mostra de cinema de terror nacional aqui na minha cidade e ele veio para um bate papo e um workshop também. Eu tenho o Sombras da Noite e estou bem curiosa com os demais livros do autor.

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  15. Ai que entrevista linda, socorro! Eu nunca li nada dele, ms todo mundo fala muito bem desse autor, morro de vontade de conhecer porque as capas dos livros dele são sensacionais. Fiquei mais curiosa pra assistir os filmes e ler os livro (tbr crescendo cada dia mais)

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  16. Oi
    muito legal a entrevista,embora acredita não conhecia mais gostei de conhecer através do seu blog,irei ficar mais de olho nele agora.

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  17. Adorei conhecer mais o autor com essa entrevista . Achei super legal o modo de expressar as histórias.

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  18. Parabéns pela entrevista, é muito bom conhecer um pouco do autor e seus processos de criação.
    Ainda não conhecia nenhum de seus trabalhos, apesar de já ter ouvido falar muito bem sobre ele.
    Vamos esperar que saia logo a estreia da A casa dos pesadelos.
    Bjinhos,
    www.prosaamiga.com.br

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  19. eu ainda não havia conhecido esse autor mais gostei muito de saber sobre ,meus parabens pela otima entrevista .

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  20. A literatura de horror brasileira é realmente legal, já li um livro sobre os contos de terror em Recife e foi muito bom ler, devemos mesmo dar mais valor ao nosso pessoal.

    https://leticia-trindade.blogspot.com/

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  21. Se há coisa que eu adoro é ler entrevistas. Conhecemos sempre o outro lado do autor, mesmo que entrelinhas. Gostei muito da entrevista. Já conhecia o autor, no entanto ainda não li nenhum dos seus livros. Tenho que mudar isso.
    Um beijo

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  22. Achei bem ambicioso compara-lo ao Hitchcock e talvez por isso, eu já queira vencer meus medos e ler o autor. A entrevista ficou formidável. Parabéns!
    Beijos

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  23. Oi Gustavo, como está?
    Pedindo sincero perdão pela imensa demora em comentar na postagem e me sentindo a pior das criaturas por não ter comentado justamente na entrevista de um autor que conheço e considero pacas, o Marcos DeBrito!
    Essa entrevista ficou MARAVILHOSA! Esse cara é simplesmente do balacobaco. Impossível não gostar dele, seja pelos livros, pelas histórias engraças do Face ou outras coisas, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    Love you, guy.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://www.galaxiadeideias.com/
    http://osvampirosportenhos.blogspot.com

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